top of page

MIP no campo: como enfrentar cigarrinhas e percevejos com estratégia e eficiência

Foto do escritor: Rádio AGROCITY
Rádio AGROCITY
há 3 dias
8 min de leitura

Resumo: Cigarrinhas no milho e percevejos em grãos seguem entre os maiores desafios fitossanitários do campo brasileiro. O Manejo Integrado de Pragas combina monitoramento, tomada de decisão, práticas culturais, controle biológico e uso correto de inseticidas para reduzir perdas sem elevar custos de forma desnecessária.


A pressão de pragas mudou de patamar em várias regiões produtoras do Brasil. A intensificação de safras, a presença de plantas voluntárias, o plantio em janelas alongadas e o clima favorável criaram condições para populações mais persistentes de insetos no campo. Entre eles, cigarrinhas e percevejos merecem atenção especial.


No milho, a cigarrinha-do-milho ganhou relevância por transmitir patógenos associados aos enfezamentos, que podem comprometer o desenvolvimento das plantas e atingir diretamente a produtividade. Na soja, no milho, no trigo e em outras culturas, os percevejos causam danos por sucção, afetam grãos, sementes e plântulas, e exigem resposta técnica no momento certo.


O ponto central é que combater pragas não significa apenas aplicar inseticida. O Manejo Integrado de Pragas (MIP) parte de uma lógica mais eficiente: observar, medir, interpretar e agir quando há risco econômico real. Essa estratégia reduz aplicações desnecessárias, protege inimigos naturais, melhora o uso de tecnologias disponíveis e ajuda a preservar a rentabilidade.


Visão ampla de lavoura de milho com técnico examinando plantas em linha de plantio
Monitoramento frequente é a base do MIP em áreas de milho e grãos.

Por que cigarrinhas e percevejos preocupam tanto


A cigarrinha-do-milho, conhecida tecnicamente como Dalbulus maidis, é pequena, móvel e difícil de controlar quando a população cresce. O maior risco não está apenas na sucção da seiva, mas na transmissão de agentes associados ao complexo de enfezamentos do milho. Plantas afetadas podem apresentar redução de porte, avermelhamento ou amarelecimento das folhas, espigas mal formadas e queda de rendimento.


O problema se agrava em regiões com milho cultivado em sequência, presença de milho tiguera e semeaduras escalonadas. Esse cenário mantém alimento disponível por mais tempo e favorece a permanência da praga na paisagem agrícola. Em áreas de safrinha, especialmente após a colheita da soja, o intervalo entre uma lavoura e outra precisa ser observado com rigor.


Já os percevejos representam uma ameaça ampla. Espécies como percevejo-marrom, percevejo-verde, percevejo-verde-pequeno e percevejo-barriga-verde aparecem em diferentes culturas e fases da lavoura. Na soja, atacam vagens e grãos. No milho, o percevejo-barriga-verde preocupa no início do ciclo, quando pode comprometer o estande e causar plantas perfilhadas ou deformadas.


As perdas não se limitam ao campo. Ataques severos reduzem produtividade, afetam a qualidade de grãos e sementes, elevam gastos com controle e podem pressionar toda a margem do produtor. Em regiões onde a agricultura movimenta comércio, transporte, assistência técnica e empregos locais, a sanidade da lavoura também tem impacto social.


O MIP começa antes da praga virar prejuízo


O primeiro erro no combate a cigarrinhas e percevejos é esperar o dano aparecer. No MIP, a tomada de decisão começa com monitoramento sistemático, feito desde a emergência das plantas até as fases críticas de formação de grãos.


No caso da cigarrinha, a atenção deve ser alta já no início do milho. A inspeção precisa considerar a presença do inseto, o histórico da área, a proximidade de lavouras mais velhas e a ocorrência de milho voluntário. O acompanhamento regional também ajuda, porque a praga não respeita divisas de propriedade.


Para percevejos, o pano de batida é uma das ferramentas mais usadas na soja. Em milho e outras culturas, a inspeção visual, a avaliação de plântulas e a observação de sintomas ajudam a identificar focos. A decisão deve considerar o nível de infestação, a fase da cultura, o potencial produtivo e a recomendação técnica para cada região.



Segundo orientações técnicas difundidas pela Embrapa, por universidades e por serviços estaduais de assistência técnica, o MIP se apoia em níveis de ação. Isso significa que o controle químico deve ocorrer quando a população da praga alcança um patamar capaz de causar prejuízo maior que o custo do controle. Aplicar antes disso pode desperdiçar dinheiro e reduzir o equilíbrio biológico da área.


Na prática, um bom monitoramento deve registrar:


  • Data da avaliação

  • Cultura e estádio da planta

  • Talhão vistoriado

  • Praga encontrada

  • Intensidade da presença

  • Sintomas observados

  • Condições climáticas

  • Ação recomendada ou realizada


Esses dados formam um histórico valioso. Eles ajudam a comparar safras, identificar áreas de maior risco e ajustar o manejo de forma mais precisa.


Estratégias culturais reduzem a pressão no campo


O controle começa com escolhas agronômicas. Para a cigarrinha-do-milho, uma das medidas mais importantes é reduzir a chamada ponte verde. O milho voluntário, que nasce após perdas de grãos na colheita ou em áreas de rotação, pode servir de abrigo para a praga e para os patógenos associados aos enfezamentos.


Eliminar plantas tigueras, planejar a janela de semeadura e evitar lavouras de milho em diferentes idades muito próximas são medidas que ajudam a reduzir a multiplicação da cigarrinha. Em regiões com alta pressão, produtores e técnicos precisam pensar de forma coletiva, porque ações isoladas podem perder força quando a vizinhança mantém hospedeiros no campo.


No caso dos percevejos, o manejo cultural inclui dessecação bem feita, atenção a áreas de palhada, bordaduras e culturas antecessoras. Muitas vezes, percevejos permanecem em plantas daninhas ou em restos culturais e migram para a nova lavoura logo após a emergência.


A rotação de culturas também tem papel importante. Ela interfere na oferta de alimento, no ciclo de pragas e na presença de inimigos naturais. Embora não elimine o problema sozinha, reduz a dependência de uma única ferramenta de controle.



Controle biológico e inimigos naturais precisam entrar na conta


O campo não é formado apenas por pragas. Há predadores, parasitoides e microrganismos que ajudam a regular populações de insetos. O MIP reconhece esse serviço ambiental e busca preservá-lo.


Em áreas de soja, por exemplo, inimigos naturais podem atuar sobre ovos e ninfas de percevejos. O uso de produtos seletivos, quando disponível e recomendado, ajuda a manter esse equilíbrio. Aplicações frequentes e sem critério podem eliminar esses aliados e favorecer o ressurgimento da praga.


No caso da cigarrinha, o controle biológico ainda depende de recomendação técnica específica, disponibilidade de produtos registrados e adequação ao sistema de produção. O produtor deve consultar engenheiro agrônomo e verificar registros no Agrofit, sistema oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária para agrotóxicos e afins autorizados no Brasil.


O controle biológico não deve ser tratado como solução isolada. Ele funciona melhor quando integrado a monitoramento, manejo de plantas hospedeiras, escolha de híbridos ou cultivares adaptados e aplicação racional de inseticidas.


Close-up de percevejo sobre vagem de soja em lavoura brasileira
Percevejos exigem identificação correta e decisão rápida na fase reprodutiva das culturas.

Inseticida é ferramenta, não plano completo


O controle químico continua sendo necessário em muitas situações. O erro está em usá-lo como resposta automática. Inseticidas aplicados fora do momento correto podem falhar, aumentar custos e ampliar o risco de resistência.


Para cigarrinhas, a fase inicial do milho exige vigilância intensa. Produtos usados no tratamento de sementes e aplicações em área podem fazer parte da estratégia, desde que sigam recomendação técnica, bula, registro para a cultura e orientação profissional. A eficiência costuma depender da pressão da praga, do momento da aplicação, da tecnologia usada e das condições ambientais.


Para percevejos, a aplicação deve considerar o estádio da cultura e o nível de ação. Na soja, a fase de formação e enchimento de grãos é crítica. No milho, a atenção ao percevejo-barriga-verde é maior no início do desenvolvimento. Em todos os casos, cobertura adequada, volume de calda, horário de aplicação e regulagem de equipamentos influenciam o resultado.



Outro ponto decisivo é a rotação de mecanismos de ação. Repetir sempre os mesmos grupos químicos favorece a seleção de populações resistentes. O Comitê Brasileiro de Ação à Resistência a Inseticidas e as recomendações técnicas de pesquisadores reforçam a necessidade de alternar ingredientes ativos de forma planejada, sempre dentro das normas de registro.


O uso de inseticidas exige responsabilidade. É preciso respeitar período de carência, intervalo de reentrada, condições de vento, proteção de polinizadores, equipamentos de proteção individual e orientação de profissional habilitado. O objetivo é proteger a lavoura, a saúde das pessoas e o ambiente produtivo.


Decisão eficiente depende de informação regional


O Brasil tem realidades muito diferentes. O manejo que funciona em uma região de milho safrinha no Centro-Oeste pode não ser suficiente em áreas do Sul, do Matopiba ou do Sudeste. Clima, calendário agrícola, pressão de pragas, cultivares, sistema de plantio e histórico da propriedade mudam a recomendação.


Por isso, a informação regional tem valor econômico. Boletins de cooperativas, redes de monitoramento, assistência técnica, Embrapa, universidades e órgãos estaduais ajudam o produtor a entender se a pressão está aumentando ou diminuindo. Quando a comunicação chega rápido, a tomada de decisão melhora.


A rádio rural cumpre papel importante nesse processo. Em muitas comunidades, a notícia técnica pelo rádio chega antes da visita presencial e ajuda a orientar perguntas ao agrônomo, organizar o calendário de monitoramento e alertar sobre riscos em lavouras vizinhas.


Traga a essência e a força do campo para o seu dia a dia! Garanta o melhor da moda e cultura rural na ESTILO RURAL.



Um plano prático de MIP para cigarrinhas e percevejos


Um programa eficiente precisa ser simples o suficiente para virar rotina e técnico o bastante para reduzir perdas. O produtor não precisa transformar a propriedade em laboratório, mas precisa registrar o que vê e agir com critério.


Para cigarrinhas no milho:


  • Elimine milho voluntário antes da semeadura

  • Evite janelas muito longas de plantio quando possível

  • Monitore desde a emergência da cultura

  • Observe áreas próximas com milho mais velho

  • Use híbridos adaptados à região, conforme recomendação técnica

  • Consulte registros e bulas antes de qualquer produto

  • Combine tratamento de sementes, manejo cultural e aplicação foliar quando indicado


Para percevejos em grãos:


  • Faça amostragens frequentes com método adequado à cultura

  • Avalie bordaduras e áreas com palhada

  • Identifique corretamente a espécie predominante

  • Respeite níveis de ação recomendados para a região

  • Proteja inimigos naturais sempre que possível

  • Ajuste tecnologia de aplicação para atingir o alvo

  • Registre resultados após cada intervenção


Esse tipo de rotina reduz decisões tomadas no impulso. Também ajuda a calcular melhor o custo por hectare e evita que a lavoura receba aplicações sem necessidade.


O custo de não manejar bem


O avanço de pragas não afeta apenas a produtividade. Ele pressiona o caixa, aumenta o risco da safra e reduz a previsibilidade do negócio rural. Uma área que exige reaplicações sucessivas consome mais combustível, mão de obra, produto e tempo operacional. Em anos de margens apertadas, esse custo pesa.


O impacto também chega à qualidade. Grãos danificados podem ter menor valor comercial. Sementes atacadas perdem vigor. Plantas enfraquecidas aproveitam pior água e nutrientes. Quando o manejo falha, todo o investimento feito em genética, fertilidade, plantio e máquinas fica mais vulnerável.



Para pequenos e médios produtores, a consequência pode ser ainda mais sensível. Uma queda expressiva na produção compromete renda familiar, pagamento de custeio e planejamento da próxima safra. Por isso, MIP não é apenas uma pauta técnica. É uma pauta econômica e social para o agro brasileiro.


O campo pede menos improviso e mais método


Cigarrinhas e percevejos não serão eliminados do sistema produtivo. O desafio é manter essas pragas abaixo do nível de dano econômico, com custo controlado e menor risco para o ambiente. Esse é o papel do MIP.


A estratégia mais eficiente combina monitoramento, eliminação de hospedeiros, calendário bem planejado, preservação de inimigos naturais, uso correto de produtos registrados e orientação técnica. Quando essas peças trabalham juntas, a lavoura ganha mais proteção e o produtor ganha mais segurança para decidir.


Para acompanhar mais informações técnicas, alertas do agronegócio e orientações para o dia a dia da produção, sintonize a programação diária da Rádio AGROCITY. Envie também suas sugestões de pautas rurais e ajude a levar ao ar os temas que fazem diferença no campo brasileiro.


Comentários


bottom of page